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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Vídeo:Conheça a história do jovem que saiu de SP para integrar o Mais Médicos e cuidar da saúde do povo cocalense

ANTES DE MÉDICO, BENEFICIÁRIO

Em linha reta, são mais ou menos 2 mil km de distância entre os becos estreitos da favela paulistana e as estradinhas poeirentas da zona rural do Piauí. Mas a vida não caminha em linha reta, como bem sabe o jovem Luis Alberto da Silva Reis, que saiu de Heliópolis, maior comunidade carente de São Paulo, com 200 mil habitantes, para integrar o programa Mais Médicos em Cocal, cidadezinha de 26 mil moradores, a 300 km de Teresina.


No meio do caminho teve a infância pobre, a violência e a sedução do tráfico; o engajamento em trabalhos sociais, o curso de medicina em Cuba, os sacrifícios da mãe e da comunidade de Heliópolis para mantê-lo em terra estrangeira, a volta para o Brasil e a oportunidade de, com apenas 27 anos de idade, ajudar a mudar a realidade de milhões de brasileiros.

Além de um orgulhoso profissional do Mais Médicos, Luis sente-se um feliz beneficiário do Programa.

“O Mais Médicos me deu a oportunidade de fazer o que eu mais gosto na vida: ajudar as pessoas. Se tivesse que definir esse programa em apenas uma palavra, eu diria: revolucionário. São quase 65 milhões de pessoas beneficiadas, do interior do Nordeste às aldeias indígenas, das comunidades ribeirinhas às periferias das grandes cidades. Brasileiros que, em muitos casos, nunca tiveram acesso à atenção básica de saúde.”

O DR. BEBEKA

Antes de ser o dr. Luis que o povo pobre da zona rural de Cocal aprendeu a admirar, Luis era o Bebeka. Continua sendo, para a comunidade de Heliópolis, de onde partiu primeiro para Cuba, depois para o Piauí. Continuará sendo no dia em que terminar sua missão em Cocal e voltar para Heliópolis. Pode até ser que alguém, por respeito ou de gozação, resolva chamá-lo de dr. Bebeka. Título que ele fará questão de renunciar, em nome do amor ao povo da favela onde aprendeu a ser gente e a torcer pelo Corinthians.

Mas, antes de Heliópolis, houve justamente o Piauí, Estado onde deu os primeiros passos na vida – e onde dá, agora, os primeiros passos na profissão. Luis nasceu em Teresina, filho de Antonia, que era solteira na época. O avô, que também se chamava Luis, queria que Antonia entregasse o recém-nascido para a adoção. Já tinha até família arranjada. Antonia fugiu de casa com o filho, foi se esconder na casa de uma amiga. O avô descobriu e foi buscar o neto, para doá-lo à família escolhida. Mas recuou, ao segurar pela primeira vez o bebê nos braços.

“Quando o vô Luis viu aquele galeguinho gordinho, bonitinho, a cabeça redondinha, disse: Não, esse aqui a gente não vai dar pra ninguém, não”, ri o neto do finado avô Luis.

Quando Luis tinha 1 ano, a mãe foi embora sozinha para São Paulo, em busca de uma vida melhor. Voltou um ano depois para buscar o filho. Luis rebelou-se. Chorou, gritou, esperneou, tanto fez que acabou ficando com o avô e a avó, a quem chamava de pai e mãe.

Aos 5 anos, o avô decidiu que era a hora e o levou para São Paulo, mais precisamente para a favela de Heliópolis, onde Antonia morava. Nos dois primeiros anos de convivência, o filho se recusou a chamar a mãe de mãe. Pior: Luis não chamava Antonia de nada. Ela pedia, à beira do choro: “Filho, me chama pelo menos de tia”.


DRIBLANDO O TRÁFICO

Com o tempo, Luis foi estreitando os laços com a mãe, o padrasto e os dois irmãos. E a vida tomou o rumo que o conduziu ao Mais Médicos e ao Piauí. Mas no meio do caminho, muitas pedras tiveram que ser removidas. Uma delas, o tráfico.

“Meu sonho era uma bicicleta, que eu não podia ter. E via os moleques da minha idade, 11 anos, desfilando de mobilete pela favela! Eram aviõezinhos do tráfico. Eles diziam que o trabalho era fácil: Vem, Bebeka, é só buscar aqui e entregar ali. Eu quase fui. Na época, minha mãe lutava para alimentar a gente, ela comprava roupa igual pra todo mundo, só variava a numeração. E a molecada lá, de mobilete, graças ao tráfico. Eu quase fui.”


Luis não foi por dois motivos: a dedicação da mãe, que fazia de tudo para manter os filhos longe do mau caminho, e o fato de que desde os 9 anos de idade participava dos programas sociais mantidos pela União de Núcleos e Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas), uma ONG combativa que trabalhava (e trabalha até hoje) com a promoção da cidadania por meio de ações em áreas como educação, saúde, cultura e esporte.

Aos 16 anos, Luis já era educador social aprendiz. Parecia ter encontrado, ali, a sua vocação. Ajudava a preparar aulas de meio ambiente, cidadania, sexualidade, temas do dia a dia em geral. Ao mesmo tempo, amava o esporte, jogava futebol, vôlei, basquete, queimada. Quando a Unas fez parceria com Marta, cestinha da seleção brasileira de basquete, Luis virou monitor do programa Lance Livre. Dedicou-se tanto que Marta decidiu pagar para ele uma faculdade de Educação Física.

Mas, em 2007, surgiu a oportunidade de estudar medicina em Cuba. O governo cubano, que mantém parceria com organizações sociais de vários países da América Latina, oferece bolsas de estudo para jovens carentes, na expectativa de que eles se formem e voltem para ajudar suas comunidades. Havia três bolsas de estudo para jovens de Heliópolis. Luis conquistou uma delas.

O governo cubano banca o curso de Medicina e o alojamento, mas a passagem aérea é por conta do estudante. Como a família não tinha aquele dinheiro todo (R$ 1.600 à época), o jeito foi fazer bingo, rifa, churrasco, feijoada... Tudo para levantar a quantia necessária.

Luis decolou para os sete anos de estudo em Cuba. Quando a manutenção do filho na ilha ficou difícil, dona Antonia fez uma vaquinha entre os oito membros de melhor poder aquisitivo da comunidade e cada um passou a contribuir com R$ 50 por mês. E quando faltou o dinheiro para Luis vir passar as férias em casa, Antonia saiu recolhendo latinha de alumínio para vender.

“A comunidade se engajou. Praticamente toda latinha de cerveja, refrigerante e energético consumida em Heliópolis foi parar nas mãos da minha mãe”, lembra Luis.


ESPERANÇA E QUALIDADE DE VIDA

Depois de formado, o sonho de voltar para casa e cuidar de sua comunidade foi temporariamente adiado. Coube a Luis a oportunidade de cuidar do povo do Piauí, mais precisamente de 1.600 moradores da zona rural de Cocal, cidade que passou por uma revolução na saúde com a chegada dos nove doutores do Mais Médicos (além de Luis, são dois brasileiros formados no Brasil e seis cubanos).


“O Mais Médicos trouxe esperança e qualidade de vida. Tem diminuído a quantidade de pessoas doentes, porque a gente trabalha mais a prevenção, em lugares que nunca antes tiveram médicos”, afirma a secretária municipal de Saúde de Cocal, Eliane Carvalho.

Antes, o município tinha apenas dois médicos concursados e um contratado. Contratar mais profissionais era um operação complexa e cara. A prefeitura era obrigada a pagar salário de até R$ 16 mil para um médico que atendesse apenas duas vezes por semana.

O sintoma mais visível dessa carência estava estampada nas filas de doentes que começavam a se formar às 2 da madrugada, no hospital e na única Unidade Básica de Saúde (UBS) do município. Mas havia também um efeito colateral invisível: o povo da zona rural que vivia se automedicando e só procurava assistência médica quando a doença já havia se agravado demais – e muitas vezes, nem assim.

Foi o caso do lavrador Manoel Luís dos Santos, 66 anos, morador do povoado de Videu. “Era um peso nas pernas, uma dor nas costas que subia pro peito, que subia pra cabeça, e as pancadas na cabeça eram tão grandes que eu passava a noite toda acordado”, lembra.

Mesmo assim, “Seu” Manoel foi levando a vida, com cada vez menos qualidade de vida. Até receber a visita da agente de saúde Clemilda Araújo. “Vá se consultar, “Seu” Manoel, que agora tem médico”, recomendou Clemilda. “Seu” Manoel foi à recém-inaugurada UBS do povoado Videu. E lá, então, um médico mediu sua pressão pela primeira vez em 66 anos de vida. O médico era o dr. Luis, e a pressão do paciente estava nas alturas: 18 por 12.


SAÚDE E AUTOESTIMA

Doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, estão entre os principais problemas de saúde da comunidade rural de Cocal, diagnostica Luis. “Eles trabalham na roça, acordam de madrugada, almoçam muito cedo, às 10 da manhã, jantam tarde, às 10 da noite, a comida é gordurosa e salgada em excesso, não tomam remédio, ou tomam na hora errada. E muitos ignoram que estão hipertensos. Acredito que o ‘Seu’ Manoel, por exemplo, teve vários princípios de infarto e nem ficou sabendo. Ele podia ter morrido.”


A verdade é que o Mais Médicos faz bem, também, à autoestima da população carente, como atesta a secretária Municipal de Saúde: “Antes, o pessoal daqui achava que médico era uma espécie de artista, uma coisa do outro mundo, de tão difícil. Hoje, o médico é uma espécie de amigo, que conhece todo mundo pelo nome. Isso melhora a autoestima. Quando alguém diz: ‘O doutor foi na minha casa, me olhou nos olhos, me examinou e conversou comigo, na verdade está dizendo: Eu sou um cidadão e tenho direito à saúde’”.

Com a ajuda do Mais Médicos, a pequena Cocal enfrentou e venceu um gigantesco dilema, tão falso quanto imobilizante: não adianta ter médico porque não tem estrutura, e não adianta ter estrutura porque não tem médico. Hoje, a cidade tem as duas coisas.

Animado com a chegada dos nove doutores, o prefeito de Cocal, Rubens Vieira (PSDB), recorreu ao Requalifica UBS, que integra o eixo de infraestrutura do Mais Médicos, para construir cinco novas Unidades Básicas de Saúde (entre elas a do povoado Videu, onde Luis trabalha) e reformar outras seis, que estavam quase caindo aos pedaços.

Resultado: hoje, o município tem 100% de cobertura de saúde básica, tanto na zona urbana quanto rural. Tem médico e tem infraestrutura. E os profissionais do Mais Médicos resolvem de 70% a 80% dos problemas de saúde da população, desafogando o único hospital da cidade.

“Nosso foco é a prevenção das doenças. Mostramos para os pacientes que mais importante que a medicação é a boa alimentação, é a prática de exercícios físicos, são os hábitos de vida saudáveis. Só encaminhamos para o especialista o que não podemos resolver, e já encaminhamos com um diagnóstico”, orgulha-se Luis.

“AGORA É OUTRA VIDA”

“Seu” Manoel está bem melhor de saúde. Uma vez por mês, recebe a visita do médico em casa. Além disso, vai periodicamente à Unidade Básica de Saúde para medir a pressão, que dos 18 por 12 iniciais, já baixou para 14 por 7. “Foi uma alegria ver o ponteirinho baixando... baixando...”, lembra o médico, enquanto o paciente comemora:


“Agora não sinto mais nem dor nas costas, nem no peito, nem na cabeça. O peso nas pernas também acabou. Tô tomando as pílulas que o dr. Luis passou e baixei o sal na comida. Tô todo dia na roça, vou pra ali, vou pra acolá... Agora é outra vida.”

Também paciente do dr. Luis, Dona Iracema Barreto dos Santos, 64 anos, só tem elogios a essa coisa “chique demais” que é ter médico perto de casa e até dentro de casa.

“Antes não tinha facilitação de médico. Agora, o doutor vem onde nós estamos, vem até na nossa casa! A primeira vez que eu fui no posto [a UBS do Videu], o dr. Luis botou aquele aparelhinho nos meus peitos e disse: Dona Iracema, a senhora tá de parabéns. Aí ele pergunta o que eu tô sentindo: Dor de cabeça? Dor nas pernas?, eu falo que não, mas aí ele fica imaginando... imaginando... e resolve reparar minha pressão. Nunca ninguém tinha me botado aquele aparelho de reparar pressão, e o resultado saiu pressão alta. O doutor pediu exame de sangue, não deu diabete nem colesterol. Ele mandou eu tomar uma pílula de manhã, outra de tarde. Mandou parar com a comida salgada e engordurada, porque é arriscado prejudicar o coração. Se a pressão altear, a pessoa pode até morrer”, explica Dona Iracema.

Sentado no alpendre da casa simples de sua paciente, o médico acompanha o relato com um sorriso nos lábios. Mais tarde, caminhando pela estradinha poeirenta do interior do interior do Piauí, o jovem que saiu dos becos estreitos da favela paulistana para ajudar a mudar o mundo não esconde a felicidade: “Eu faço parte disso. E isso, para mim, não tem preço”.


Fonte: Historias do Brasil



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