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domingo, 9 de julho de 2017

Escola do Piauí coleciona medalhas e vive empolgação com a matemática

Fernanda Veras Rodrigues (esquerda), 16 anos, e Ana Claudia Souza de Brito, 18. Foto: Adriano Vizoni/Folhapress
Ana Claudia Souza de Brito, 18, é praticamente uma exceção na sua escola. É que a estudante do 3º ano do ensino médio não gosta de matemática. Mas isso não a impediu de ter faturado uma medalha na OBMEP (Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas).

A premiação dela não foi uma novidade na escola estadual Augustinho Brandão, que acumula 131 medalhas desde 2006. Esse fenômeno não só colocou a escola de Cocal dos Alves, no interior do Piauí, em evidência nos últimos anos, como também ajudou a criar uma onda de empolgação com a disciplina.

Alunos Escola Estadual Augustinho Brandão, em Cocal dos Alves (PI), reconhecida pelo excelente ensino e por se destacar em Olimpíadas de Matemática/ Foto: Adriano Vizoni/Folhapress
"O incentivo dos professores faz a gente até gostar", explica Ana Claudia, que planeja se formar em direito e se tornar policial.

Cocal dos Alves tem menos de 6 mil habitantes. Cercada de uma bela vegetação de caatinga, com as suas árvores baixas, mas muito verde, a cidade ostenta casas simples em ruas de pouco movimento, algumas delas de terra.

O IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano) do município é um dos mais baixos do Brasil: 0,498, enquanto o mais baixo, de Melgaço (MA) é de 0,418, segundo dados publicados em 2012.

O prédio mais vistoso de Cocal é exatamente o da escola Augustinho Brandão. A construção foi providenciada pelo governo do Piauí na esteira dos bons resultados conquistados pelos alunos.

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress
Pelo menos desde 2011 a escola atinge no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) os melhores resultados entre escolas com o mesmo perfil socioeconômico –ficando acima da média do país. Isso tem garantido aprovações expressivas em universidades federais, conta a diretora, Aurilene Brito, 34.

No ano passado, da turma de 18 alunos do 3º ano, 15 entraram em instituições públicas. Neste ano, a escola tem 44 alunos no 3º ano -26 deles em tempo integral, o restante no período noturno.

"Estamos em uma escola de baixa renda, e eles veem na escola uma oportunidade real de mudar de vida. Nós temos de olhar e acreditar", diz.

No cargo há oito anos, Aurilene insiste que o trabalho de equipe e a ética dos profissionais, "que precisam entender sua responsabilidade", é a parte crucial do trabalho. "Nosso diferencial é que tudo funciona direitinho, não é pontual, é permanente".

OLIMPÍADA

O sonho da vaga na universidade pelo Enem ajudou no engajamento dos estudantes. Mas foi a Olimpíada que criou uma ponte entre a cidade e o resto do país, fomentando um clima de amor aos estudos da disciplina.

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress
O professor de matemática Antonio Cardoso do Amaral, 37, foi o responsável por incentivar a participação. Entre os alunos, é citado como um exemplo e, não por acaso, muitos querem ser professor.

"No começo, foi preciso muita insistência para eles estudarem e com poucos resultados. Mas depois ficou mais equilibrado: não precisou de tanta insistência e os resultados começaram a contribuir também", diz Amaral.

A competição, organizada pelo Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), aprova para a segunda fase, no máximo, 5% dos participantes de cada escola.

Na última edição, só 1 dos 25 alunos da escola não foi premiado. Assim, na Augustinho Brandão, a disputa ocorre entre os colegas.

Na premiação, medalhistas viajam para o Rio e ainda contam com bolsa de R$ 100 por mês ao longo de um ano.

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress
Filhos de lavradores que não terminaram o ensino fundamental, os irmãos Anderson e Jeferson Brito, ambos de 15 anos, estão na segunda fase e participam do reforço para a OBMEP na escola.

"Quero tentar ir pro Rio, a premiação é no mesmo lugar onde premiam os melhores do Campeonato Brasileiro, é um lugar que queria conhecer, de gente importante", diz Jeferson, que pretende estudar matemática no futuro.

TRADICIONAL

Os profissionais descrevem o projeto da escola como tradicional. Aulas e muitos exercícios. O livro didático é seguido à risca, respeitando a grade de aulas do Estado.

Quem não faz as tarefas vai para a diretoria. Reincidências geram suspensão.

"Pra quem quer alguma coisa, essa escola é a melhor do mundo", diz Fernanda Veras Rodrigues, 16. Aluna do 3º ano, ela diz que o Enem é como uma fixação. "Tem que estudar, é a única oportunidade que tem pra gente".


A postura da escola gerou efeitos colaterais, como altos índices de reprovação, que chegaram aos 50%. A equipe diz atacar o problema. No passado, 7 dos 43 alunos do 1º ano do ensino médio reprovaram. Uma taxa de 16%, acima da média nacional (12%).

Com um regimento firme (é proibido usar brinco) a escola conseguiu consolidar um acordo com os alunos em torno dos estudos. Mesmo com 324 alunos, do 6º ano do fundamental ao 3º do médio, poucos são atendidos pela diretora por não fazer a lição.

"O mais difícil é achar os aliados", diz Amaral, sobre os alunos. "Se fizer isso, fica muito mais fácil".

Editoria de Arte/Folhapress

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